segunda-feira, 15 de julho de 2013

Chapa branca

É louvável que as centrais sindicais voltem às ruas com suas reivindicações, ao lado dos partidos políticos tentando retomar a iniciativa perdida desde o primeiro governo Lula.

Sua pauta de reivindicações centrais sindicais traduz o sentimento da maioria da população: a falta de dinheiro aliada ao pouco caso do governo federal e do congresso para com os trabalhadores, tanto ativos quanto aposentados.

Uma olhada pouco mais cuidadosa à essa pauta, entretanto, expõe a contradição entre as reivindicações e a política de um governo que se diz capitaneado por um suposto Partido dos Trabalhadores. Senão, vejamos:

A redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais propiciaria mais empregos, renda e melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. O governo e seus aliados jamais encaminhariam tal proposta no congresso, pois a maioria da base aliada é composta por empresários, que não têm o mínimo interesse, muito pelo contrário, de reduzir seus lucros. Seriam necessárias inúmeras isenções fiscais e outros tipos de “incentivos” para existir a mínima probabilidade de tal proposta ter vida útil.

O fim do fator previdenciário e a melhoria das aposentadorias também não têm a menor chance de gorar. O governo e sua base são ferrenhos defensores do pagamento de uma dívida que não existe, mas ainda que existisse já teria sido paga inúmeras vezes. Sua aliança principal é com o capital, seu mentor e principal esteio de sustentação. Impossível imaginar retirarem recursos públicos de monta para favorecer o público.

O fim dos leilões do petróleo e a sua nacionalização integral via Petrobras são improcedentes pelo mesmo argumento. Desde Collor vivemos o império do neoliberalismo, consubstanciado no Consenso de Washington. Dilma e o PT – seus aliados então nem pensar – não possuem convicção política e muito menos ideológica para enfrentar o capital.

Já a proposta de reforma agrária é um autêntico chover no molhado. O Brasil é o único país com o capitalismo plenamente desenvolvido que não a realizou. Desde as capitanias hereditárias somos reféns de meia dúzia de posseiros que se auto-intitulam produtores rurais. O agronegócio possui cerca de 200 deputados federais, é a força mais organizada no congresso, daí não entender como o MST consegue conversar com o PT.

Transporte público e de qualidade significa ir contra os interesses dos empresários do setor, hábeis em financiar campanhas eleitorais de prefeitos, governadores, vereadores e deputados, tanto estaduais quanto federais. É brincadeira!

A terceirização é outra proposta sem perspectiva, afinal é preciso reduzir o ‘custo Brasil’. Os próprios sindicatos, federações, confederações etc. utilizam os seus serviços, como cobrar aquilo que eles mesmos não praticam? Poupem-nos!

As únicas chances, ainda que remotas, de algumas dessas propostas serem aprovadas recaem sobre os 10% do PIB para a educação e os 10% do Orçamento Geral da União para a saúde. O primeiro é mais viável pois existe um projeto em debate no congresso, apesar de uma manobra do governo federal ter feito ser aprovada no Senado proposta que reduz em cerca de R$ 200 bilhões os recursos para a educação nos próximos 10 anos.

Os profissionais da saúde foram mais pragmáticos ao reivindicar 10% do Orçamento Geral da União, já que é mais fácil mensurá-lo e controlá-lo. A dificuldade está no governo ceder, uma vez que 48% do mesmo é direcionado para o capital financeiro, o que lhe deixa pequena margem de manobra para comprometer esses 10%.

As contradições entre a pauta de reivindicações das centrais sindicais e a política do governo e do congresso são nítidas. Será que os sindicalistas vão se desfiliar dos partidos políticos que sustentam Dilma e seus aliados para lutar por essa pauta ou vão continuar dando uma no cravo e outra na ferradura?


Afonso Costa
Jornalista

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