terça-feira, 4 de maio de 2010

Depoimento de um professor mineiro sobre o salário da categoria

Sou professor do Estado de Minas Gerais desde 2001. Formado em licenciatura Plena em Matemática, atualmente curso pós graduação em Cálculo na Ufmg e pago R$ 280,00 mensais em 17 parcelas ao custo total de R$ 4.760,00. Depois de concluído o curso, receberei, em relação ao salário atual, R$ 50,04 de adicional. Isto significa que o governo do estado valoriza os profissionais da educação com especialização da seguinte maneira: depois de 95 meses (não se assuste são 8 anos mesmo!), o tempo que gastamos para pagar nosso curso através do adicional pago pelo governo, realmente o adicional pago passa a ser investimento.
Então esse é o governo incentiva a educação? A formação de professores e demais profissionais? Nesse momento me pergunto, ao ouvir a população em geral criticar a greve dos professores, quem está prejudicando a educação dos seus filhos? É dessa forma que Minas avança?

Minha formação em matemática não permite esconder-me e deixar as informações divulgadas pela SEE –MG confundir e iludir a população em geral, aliás esse é um dos meus papéis como educador: formar um cidadão crítico, analítico e que se posiciona diante das informações que a ele chegam.

Irei-me ater aos itens constituintes do salário de um professor do estado. O governo noticiou que o piso salarial era R$ 850,00 e que após o aumento de 10% passou para R$ 935,00. E aí já começa a ilusão e manipulação da informação, isso porque os valores acima NÃO SÃO PISO, que é o salário básico de uma categoria, e SIM UM TETO. Para entender essa diferença, olhe cuidadosamente as tabelas abaixo:

 TABELA 1
VENCIMENTOS
SALARIO BASE R$ 500,48
GRATIFIC. INCENTIVO A DOCÊNCIA R$ 100,10
AUXÍLIO TRANSPORTE R$ 36,80
TOTAL R$ 637,38
Os valores da tabela são referentes aos ganhos de um professor em início de carreira e não estão considerando os descontos. OBSERVE QUE O SALÁRIO BASE É R$ 500,48.

continua


Agora entra a mágica: Como o governo diz que paga o piso e esse piso é de R$ 850,00, foi criada uma PARCELA COMPLEMENTAR DE REMUNERAÇÃO DO MAGISTÉRIO (PCRM), que é a DIFERENÇA ENTRE O QUE O PROFESSOR REALMENTE GANHA E O QUE O GOVERNO DIZ QUE PAGA e outros itens de perfumaria como a VANTAGEM TEMPORÁRIA INCORPORADA (VTI), que visam claramente enganar a população uma vez que a vantagem (só o governo vê como vantagem) é TEMPORÁRIA do atual governo, sendo que pode ser retirada a qualquer momento.

 Assim a tabela1 fica da seguinte maneira:
 TABELA 2 -
VENCIMENTOS
SALARIO BASE R$ 500,48
GRATIFIC. INCENTIVO A DOCÊNCIA R$ 100,10
AUXÍLIO TRANSPORTE R$ 36,80
VTI R$ 88,01
PCRM R$ 124,61
TOTAL R$ 850,00

Na tabela 2 há um complemento de R$ 212,62 (PCRM + VTI). Lembrando que as duas tabelas representam os rendimentos de um professor em início de carreira. Agora já a tabela 3, abaixo representa os vencimentos de um professor com dois anos de trabalho e com especialização:

TABELA 3 - VENCIMENTOS
SALARIO BASE R$ 500,48
GRATIFIC. INCENTIVO A DOCÊNCIA R$ 100,10
AUXÍLIO TRANSPORTE R$ 36,80
GRATIFIC. INCENTIVO A DOC. BIÊNIO R$ 25,02
GRATIFICAÇÃO POR CURSO R$ 50,04
VTI R$ 88,01
PCRM R$ 49,55
TOTAL R$ 850,00

Esse profissional recebe R$ 75,06 a mais que o profissional das tabelas 1 e 2, devido à sua formação e tempo de trabalho. Mas a PCRM dele é menor nos mesmos R$ 76,06, isto é, PARA O GOVERNO NÃO FAZ DIFERENÇA NENHUMA SE O PROFISSIONAL É ESPECIALIZADO OU NÃO, SE TRABALHA HÁ UM DIA OU HÁ DEZ ANOS: O SALÁRIO É O MESMO.
Assim o governo, como citei no início, paga um teto e não um piso como veiculando. Como o teto sofreu aumento de 10% significa que PCRM aumentará no máximo em R$ 224,61, dependo da formação e tempo do serviço.
Observem que não estou reclamando, ainda, do auxilio transporte....
Abaixo, para encerrar minha explanação, veja a tabela 4 de como ficaria os vencimentos de um professor em início de carreira SE O GOVERNO PAGASSE O PISO COMO ELE DIVULGA:

TABELA 4 - VENCIMENTOS
SALARIO BASE R$ 950,00
GRATIFIC. INCENTIVO A DOCÊNCIA R$ 190,00
AUXÍLIO TRANSPORTE R$ 36,80
TOTAL R$ 1.176,80

Note que da tabela 1 para tabela 4 o salário quase dobra.

Assim, o governo realmente se preocupa com a educação? Deixo essa pergunta a quem está criticando os profissionais da educação por fazer greve e lutar, não só por um salário digno, mas por condições dignas de trabalho, melhorando assim a educação dos nossos filhos.

Fábio Aparecido Simao
 Professor Educação Básica Estadual

Nenhum comentário: