domingo, 2 de novembro de 2008

Quatro lembretes para todos nós que queremos mudar o mundo




Por Rodrigo Oliveira Fonseca*




A partir desse azedume do segundo turno, quando, a despeito de qualquer problema semântico, comprovamos que o pior sempre poderá piorar, resolvi escrever alguns lembretes nem um pouco pessimistas. A hora é bem apropriada.


1 – Agir coletivamente


Um dos males culturais do nosso tempo é esse foco no indivíduo, na intimidade, no "eu interior", ou seja lá o que se chame. Tudo isso tem nos levado à ilusão de vivermos a vida de forma autêntica, verdadeira, singular, quando na verdade o que tem nos consumido é um vazio imenso, uma falta (ou pobreza) de sentidos... Em verdade, desse jeito compramos muito mais facilmente os sentidos prontos e à disposição nas prateleiras da indústria cultural.


Não tem saída sem olhar pra fora da janela, abrir a porta e convidar algumas pessoas para entrar. Temos que nos esforçar pra ver de um lugar mais alto e mais amplo que o nosso umbigo, a nossa rua, o nosso (muitas vezes já duríssimo) drama pessoal. Sem prejuízo algum para as iniciativas individuais, que são imprescindíveis, nossas ações precisam ser coletivas! Dificilmente as iniciativas pessoais viram correntes, e menos ainda correntezas, a não ser que tenham em si um poder aglutinador.


Essa força coletiva e aglutinadora a gente não se consegue apenas somando lideranças, juntando espíritos inquietos. Nós, os já perturbados com o mundo, mais do que formar confrarias entre iguais ou quase iguais, temos que descobrir formas variadas de perturb..., de sensibilizar os outros! Isso não se consegue com arrogância nem com frases prontas.


Nesse sentido toda manifestação, todo panfleto, todo pequeno ou grande gesto de luta pra mudar o mundo, não pode ser apenas contra isso, contra fulano, ou contra tudo. Não pode ser apenas um descarrego de raiva (e de consciência) ou de frustrações (ainda que com os desejos mais profundos, em estado puro). Não pode ser nenhum descarrego, desconto, troco,... deve muito mais servir como uma ponte, como um convite pra que outros possam realmente se somar – e multiplicar. Isso se faz com linguagem, posturas e procedimentos, o que nem sempre é fácil controlar, mas também se faz, sempre, com vontade e decisão de agir coletivamente.


Vamos desbaratar o discurso liberal, que diz que a liberdade de "um" começa onde termina a do "outro". O mundo não é aquela banda (que felizmente não escuto há tempos) "Uns e Outros", ele não é formado por seres isolados e indiferentes entre si, perfeitamente intercambiáveis. Isso é o grande sonho do capitalismo, poder reduzir as pessoas a uma função, a um lugar vazio dentro de uma estrutura (de produção), facilmente preenchido por qualquer um que tenha que se submeter a ele. Somos ao mesmo tempo diferentes e extremamente dependentes uns dos outros. O que é preciso é mudar algumas dessas dependências e dessas liberdades...


Contra essa liberdade imensa que o sistema tem pra nos tirar o emprego, a casa, a saúde, a tranqüilidade, o conhecimento, a voz, a disposição,... só com muita ação, e só com muitos agindo. 2 – Falar e fazer. Fazer e falar.


Diferentemente do que se diz por aí, não é verdade que "falar é fácil, o difícil é fazer!". Falar é difícil pra caramba... E falar também é fazer. "Fulano só fica no verbo"... quem diz isso se esquece que verbo é prática, é ação, e que muitas vezes até mesmo ficar calado e não repetir aquilo que esperam que você repita, já é um tremendo dum gesto. Silenciar em determinado momento pode ser bastante subversivo.


Tanto naquilo que a gente pode e deve fazer como naquilo que a gente pode e deve falar, o importante é buscar os sentidos. Sobretudo os sentidos que derrubam a acomodação. Fazer por fazer ou falar por falar não ajudarão na bela tarefa cotidiana de mudar o mundo. Falar deve ser sempre um convite ao fazer. Fazer deve sempre ser um convite ao falar, à reflexão coletiva, à crítica, ao estudo.


3 – Estudar e estudar.


Outra coisa que no comportamento de muitos perturbados com o mundo parece secundária mas não é: estudar. O estudo, historicamente, tem levado muitas pessoas ao enfrentamento contra o sistema. Ele tem o poder de despertar, de mexer conosco, sobretudo quando feito de forma interessada e interessante.É claro que muitas coisas que se estuda são profundamente alienantes, não passam de saberes instrumentais à ordem, que servem apenas para a reprodução do sistema em suas muitas demandas e funções. Não é desse estudo que se trata aqui.


Precisamos estudar de diversas maneiras, não só com livros e não só com os "livros de estudar". É possível estudar com o bairro onde a gente mora, estudar com a literatura, com o cinema, na conversa com os familiares e amigos. Pode-se estudar até na escola e na faculdade!!! Pode-se estudar assistindo o pior dos programas na TV. Isso porque quem faz o estudo é sempre quem estuda, é o olhar de quem estuda, analisa e compreende.


Mas precisamos, evidentemente, estudar as mais diversas formas de intervir no destino das coisas. Só se faz isso, entretanto, com muita humildade, com a consciência de que nunca saberemos o bastante, e que o resultado de todo bom estudo não é chegar a respostas inabaláveis, mas sim a capacidade de fazer novas e melhores perguntas. Perguntas que façam o chão tremer e o horizonte se abrir. As respostas, bem, as respostas a gente conquista, na prática, como de certa forma escreveu o velho Karl Marx: a prática é o critério da verdade.


4 – Combater.


Há alguns anos atrás, no Fórum Social Mundial, pela boca de João Pedro Stédile, do MST, ouvi algo que me marcou profundamente. Algo simples: não basta apoiar os fracos, os pobres, os trabalhadores; é preciso combater os poderosos, os ricos, os grandes empresários. Essa sentença adquire uma força maior se pensamos os vínculos do MST com a Teologia da Libertação, que marcou um acontecimento no seio do cristianismo latino-americano.A tradicional atenção aos pobres no cristianismo (em oposição àqueles que hoje seguem a Teologia da Prosperidade) implicava em caridade, em doação de bens. A partir da ação e dos escritos de teólogos que estudaram o marxismo de coração aberto, a atenção aos pobres virou combate à pobreza, virou doação de si para esta causa fenomenal.


Não se combate a miséria olhando-se apenas para a miséria. No capitalismo, ela é resultado direto da riqueza de uns poucos. Esse combate (bater em conjunto, agir coletivo) não é certamente contra as pessoas, mas contra os papéis e funções que elas cumprem na ordem social. O combate é contra a possibilidade de elas poderem continuar fazendo o que fazem, em detrimento da maioria.


Nessa contra-função, nessa resistência e enfrentamento, é claro que não há como agradar a todos, não há como ser totalmente simpático. Se nos parece que estamos fazendo algo grande para mudar o mundo, e com isso que fazemos não provocamos reações, de nenhum tipo, é um sinal claro de que ainda não tocamos nas coisas mais essenciais da manutenção da ordem.O capitalismo tem demonstrado uma capacidade imensa de absorver as pessoas, os grupos e as idéias que surgem para o combater. Vejam a apropriação feita da imagem do Che Guevara. Vejam o que se tornaram alguns partidos considerados de esquerda. Vejam o que algumas ONGs têm faturado na ausência do Estado. A imagem de Che, a esquerda parlamentar e o trabalho de cooperação desenvolvido por algumas organizações, quando deixam de significar enfrentamentos, quando deixam de implicar em combate à ordem e são por ela engolidos, servem muito bem na promoção da imagem de um mundo mais democrático e tolerante.


É esse outro engodo que nos forçam engolir nestes tempos, a tolerância, no sentido de indiferença, de passividade. Tolerar é bem diferente de compreender. Os que compreendem e não toleram o mundo como ele é são chamados de autoritários... Mas é por trás desses discursos de recusa de toda e qualquer autoridade, de critérios, de diferenciação, que se pode ver o mais violento autoritarismo, o autoritarismo da impossibilidade de questionar e alterar as coisas no mundo. Isso é intolerável! Nos reduz a lesmas.


Ao invés de ficarmos amargando estes últimos acontecimentos do mercado do voto, do jogo eleitoral, cada um de nós tem, todos nós temos, certamente, alguma forma de conciliar essas necessidades de combater, de estudar, de fazer e falar e de agir coletivamente.


Afinal de contas, mudar o mundo não é nada assim de outro mundo.




*Rodrigo Oliveira Fonseca é Jornalista formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestre em história social da cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), professor-bolsista e doutorando em estudos da linguagem na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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